Eu sou o Samba
O retorno triunfal da rainha: Leci Brandão faz história e concorre ao Grammy Latino

Aos 82 anos de idade, Leci Brandão não está apenas celebrando o passado; ela continua moldando o presente e ditando os rumos da música popular brasileira. A lendária sambista acaba de alcançar um dos pontos mais altos de sua vitoriosa trajetória de cinco décadas: o álbum 50 Anos de Carreira (Ao Vivo) foi indicado ao prestigiado Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Samba/Pagode.
Com um repertório avassalador de 14 faixas distribuído globalmente pela ONErpm, o projeto traduz a alma de uma artista que desafiou o patriarcado e as convenções desde o primeiro minuto em que pisou nos terreiros e nos palcos do país.
Nascida no tradicional bairro de Madureira e criada em Vila Isabel, a carioca cravou seu nome nos livros de história ainda em 1972. Ela foi a primeiríssima mulher a quebrar as barreiras e ser aceita na exclusiva ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, feito alcançado após ser apadrinhada por Zé Branco e aprovada sob rigorosa avaliação de sua obra. Na época, a Verde e Rosa era um território puramente masculino.
Mas a coragem de Leci nunca parou por aí. Além de pautar a cultura afro-brasileira, as religiões de matriz africana como a Umbanda e o Candomblé e a luta por justiça social em sua discografia de cerca de 26 discos, ela foi uma das pioneiras absolutas na defesa da pauta LGBTQIAPN+ no Brasil. Ainda durante a ditadura militar, nos anos 1970, abriu o jogo sobre sua sexualidade em uma histórica entrevista ao icônico jornal Lampião da Esquina, tornando-se um símbolo imortal de liberdade.
O registro ao vivo que agora disputa o troféu internacional reúne clássicos eternizados por sua voz marcante, como “Zé do Caroço”, “Sonho Meu” e “Deixa para Lá”, além de releituras primorosas de hinos assinados por Jorge Aragão, Elis Regina, Grupo Revelação e Fundo de Quintal. Para coroar o projeto, Leci reuniu um time de peso na gravação: Xande de Pilares, Criolo e Pretinho da Serrinha dividem o microfone com a diva.
Até quem atua nos bastidores da indústria fonográfica não esconde a emoção ao falar da potência desse trabalho. Para Gil Sabino, gerente de projetos de Samba e Pagode da ONErpm Brasil, o lançamento carrega um forte valor afetivo que remonta à sua infância: ele cresceu ouvindo os vinis da sambista na casa de sua avó. Silas Martins, do setor de A&R da distribuidora, reforça que a obra da artista é um verdadeiro patrimônio cultural do Brasil e que o objetivo central da estratégia digital é fazer essa voz ecoar para as novas gerações.
Emocionada com a visibilidade global do trabalho, a própria cantora resumiu o sentimento de ver o ritmo do morro ganhar o mundo: ver o samba atravessar fronteiras após tantas batalhas é um presente que ela recebe com o coração transbordando de gratidão.
A grande cerimônia de entrega do Grammy Latino está marcada para o dia 12 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos, onde Leci Brandão chega como uma das grandes favoritas a levar a estatueta para casa e reafirmar o gigantismo do samba feito por mulheres no Brasil.

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